Vídeos de leitura labial de famosos viralizam e irritam até realeza britânica; especialistas alertam sobre riscos
Vídeos virais fazem a leitura labial de famosos Reprodução/TikTok Imagina poder saber o que o ator Timothée Chalamet disse à namorada minutos antes de perd...
Vídeos virais fazem a leitura labial de famosos Reprodução/TikTok Imagina poder saber o que o ator Timothée Chalamet disse à namorada minutos antes de perder o Oscar, o que Ivete Sangalo susurrou com o cantor Shawn Mendes durante o Carnaval, ou até entender o que Donald Trump comentou com o magnata Jeffrey Epstein em um vídeo antigo. Todas essas "conversas de bastidores" (ou pelo menos versões delas) estão disponíveis em vídeos de leitura labial virais na internet. "É um vislumbre de momentos não roteirizados, os intervalos entre o que é oficialmente transmitido. Essa combinação de visibilidade sem som cria uma lacuna, e o público é naturalmente atraído", diz ao g1 a britânica Nicola Hickling, especialista em leitura labial forense (aplicada a investigações e processos judiciais). O uso da técnica como entretenimento não é exatamente uma novidade — o Fantástico, por exemplo, estreou em 2006 o quadro "Retrato Falado" durante a final da Copa do Mundo para saber o que aconteceu antes da famosa cabeçada do Zidane—, mas vem ganhando cada vez mais espaço graças às redes sociais. Perfis no Tiktok e Youtube que "decifram" conversas em clipes curtos de celebridades ou jogadores de futebol conquistaram milhares de seguidores, mas especialistas ouvidos pelo g1 alertam para os riscos de se fazer isso de forma amadora (entenda abaixo). O que eles falaram? Dublador faz leitura labial de jogadores Por trás dos virais Com mais de 1,5 milhão de seguidores no TikTok, a norte-americana Nina Celeste, 29, produz vídeos curtos em que interpreta o que atores, políticos e atletas dizem fora dos microfones. Em conteúdos de cerca de 1 a 3 minutos, ela aparece sobreposta às imagens, dublando de forma sincronizada o que acredita que as celebridades estão dizendo. 🎬 Em um vídeo recente, com mais de 4,7 milhões de visualizações, ela faz a leitura labial de Leonardo DiCaprio durante o Oscar de 2026. Na cena, o ator aponta para alguém. A influencer interpreta: “Eu estava te olhando na hora do K-pop. Você ficou tipo ‘quem é esse K-pop?’”, seguido de risadas. Ao final, pede que os usuários comentem com quem ele estava falando, já que ela não tinha essa informação. Ao g1, Nina contou que começou a produzir os vídeos em 2020, durante a pandemia, e rapidamente atraiu seguidores curiosos sobre o universo das celebridades. “Hoje, o TikTok virou uma espécie de reality show, talvez até mais intenso. As pessoas assistem porque é divertido e gostam de tentar adivinhar se o que eu digo está certo ou não”, afirmou. Ao longo de mais de cinco anos produzindo esse tipo de conteúdo, ela afirma que apenas uma celebridade entrou em contato para questionar um vídeo, e que nunca enfrentou problemas judiciais. “Era um tema sensível, então preferi apagar por respeito”, disse, sem entregar o nome da pessoa. O mesmo aconteceu com o influenciador brasileiro Gabriel Velloso, de 33 anos, que começou a produzir vídeos com falas de jogadores de futebol em 2024. “Só tive um problema com uma pessoa anônima. Era uma torcedora do Corinthians criticando o Neymar e ela passou a receber muito ‘hate’. Percebi que os comentários estavam pesados e retirei o vídeo”, contou. Com quase 2 milhões de seguidores, Velloso vai além da leitura labial e cria uma dublagem interpretativa, modulando a voz conforme os personagens. “A ideia é deixar a cena mais viva, não só traduzir, mas interpretar”, disse. Ele afirma que pode passar até seis horas analisando diferentes ângulos de câmera para produzir um único vídeo. Leitura amadora x profissional Ao g1, Renata Christina Vieira, fonoaudióloga forense, membro do departamento de perícia fonoaudiológica da Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia, explicou que cerca de 50% do que é dito por alguém pode ser identificado por meio da leitura labial. Isso acontece porque muitos sons são produzidos no fundo da boca ou têm articulações muito parecidas, tornando várias palavras visualmente indistinguíveis. Além disso, fatores técnicos influenciam diretamente no resultado, como: qualidade da imagem, iluminação, ângulo do rosto, contexto cultural e sotaque das pessoas, velocidade da fala, e possíveis interferências no vídeo. Segundo a especialista, embora a leitura labial seja uma técnica que pode ser aprendida, vídeos virais que “traduzem” falas completas de forma rápida e sem contexto devem ser vistos com cautela. Isso porque uma análise profissional exige, entre outros critérios, validação e revisão por pares para garantir a compreensão adequada do que foi dito. “A impressão que dá é que a pessoa está vendo o vídeo pela primeira vez e já sai ‘traduzindo’ com naturalidade, o que não é possível”, afirma. “Isso que eles fazem é entretenimento. Não pode ser levado em consideração como conteúdo real.” A avaliação é compartilhada por Nicola Hickling, que atua como consultora para empresas de jornalismo e produtoras audiovisuais. "Da minha perspectiva, há uma distinção clara entre leitura labial profissional e conteúdo criado para entretenimento. No meu trabalho, precisão e responsabilidade são centrais, especialmente quando os indivíduos envolvidos são figuras públicas e o conteúdo pode influenciar narrativas mais amplas", afirmou ao g1. Riscos e responsabilidades Renata Vieira alerta que a leitura labial sem contexto pode atribuir falas incorretas, distorcer declarações e causar danos à reputação, além de esbarrar em direitos como privacidade e imagem. "O principal responsável é quem está produzindo esse conteúdo. Os 'tiktokers' deveriam colocar uma mensagem dizendo que não têm confirmação do que foi dito, que é um entretenimento, para poder tirar um pouco o peso dessas palavras", diz. A influenciadora Nina Celeste contou ao g1 que passou a incluir um aviso de que seus vídeos "não devem ser consideradas como verdade ou fato" após passar a ser mencionada em reportagens e na internet como especialista em leitura labial. "Não tenho formação e nem tenho nenhuma perda auditiva. Sempre quis deixar claro que é entretenimento. Então comecei a reforçar o aviso para evitar confusão, principalmente com pessoas mais jovens. É um palpite, não uma verdade absoluta", disse. Outros criadores, como Jackie G, que é surda e soma mais de 3 milhões de seguidores, também adotam esse tipo de alerta. Apesar disso, a prática ainda não é comum. No Brasil, por exemplo, dois perfis conhecidos principalmente pelas dublagens esportivas na plataforma, o Gabriel Velloso e Gustavo Machado (3,7 milhões de seguidores), não incluem avisos em seus vídeos. Questionado pelo g1, Velloso afirmou que já publicou alguns conteúdos explicando que suas interpretações não devem ser tomadas com 100% de certeza e disse que passará a incluir esse tipo de aviso. “Realmente, acho que é um erro meu não ter este alerta", disse. Influencers que fazem leitura labial colocam alertas para avisar que não se trata de uma dublagem 100% verdadeira Reprodução/TikTok Segundo as especialistas, outro risco é o recente uso da inteligência artificial para manipular vídeos, o que pode levar a "traduções" erradas. "Sem o treinamento necessário ou a compreensão de contexto, as interpretações podem facilmente ser deturpadas ou tiradas de contexto, especialmente quando são amplamente compartilhadas nas redes sociais", afirma Nicola. O documentário que irritou a família real Na última semana, uma reportagem do jornal inglês "The Guardian" revelou que representantes da família real britânica passaram a ser alertados por assessores sobre conversas em público após a repercussão do documentário do Channel 5, "Lip-Reading the Royals" (“Leitura Labial da Realeza”, em tradução livre). "Os membros da família real estão cientes da infeliz e crescente tendência de usar leitores labiais, com diferentes graus de imprecisão, para espionar conversas que qualquer pessoa teria o direito de considerar privadas", disse uma fonte próxima à realeza ao jornal britânico. Nicola Hickling, que atuou como consultora na produção, destacou ao g1 que o trabalho foi conduzido em um ambiente controlado e com responsabilidade editorial. "Meu papel é fornecer uma interpretação profissional, que os jornalistas podem então contextualizar em suas reportagens, afirmou. Ela avalia, ainda, que famosos estão mais cuidadosos para não serem flagrados por leituras labiais. "Ainda assim, muitas interações continuam acontecendo de forma natural e em tempo real, especialmente em ambientes informais ou de alta pressão. É nesses momentos que a leitura labial ganha relevância", afirma. Série britânica expôs conversas da realeza por meio da leitura labial Divulgação